Épico, pode ser a palavra melhor utilizada para expressar o que significa a experiência de assistir o filme: Os Croods.
Uma animação de uma reflexão sem tamanho. É uma reprodução infantil da Alegoria da Caverna. O grande barato é a questão filosófica que é abordada na história do filme. É uma espécie de conto ingênuo e moral adaptado do enunciado filosófico. Platão para a criançada, um máximo! Louvável!O filme aborda o temor, o encantamento e a angústia do ser humano em sua busca por conhecimento fora da caverna.
Logo na introdução, podemos ver que “Os Croods” foram uma família bem sucedida em uma época de adversidades. Essa é uma história de uma das últimas famílias dos homens das cavernas. Sim, eles tinham muitos vizinhos, porém, para essa família, todos os clãs da vizinhança foram devorados por animais selvagens — monstros gigantescos: estamos na pré-história — ou dizimados por doenças fatais. Isto é, todos foram mortos de uma formal cruel... ou não.
Os Croods são sobreviventes, persistem caçando durante o dia e buscando refúgio na sua caverna à noite. A regra do chefe da família é única: eles sempre têm que ficar dentro da caverna, que é a casa deles, e sair apenas para caçar o alimento.
A caverna os mantém longe da morte, mas muito perto da falta de vida. Vivem sob a alçada da ignorância num micro-universo denso, escuro, triste. Sabem apenas o significado atribuído a “sobreviver”, mas desconhecem qualquer conceito como liberdade, sonhos, ambições ou saber.
A caverna é o único espaço onde se sentem confortáveis e seguros, isso porque o chefe construiu uma filosofia em que ter medo fará com que a família continue viva. Você percebe logo de cara um discurso contra: a curiosidade, a exploração ou qualquer forma de atitude fora da “rotina”. Qualquer coisa fora dessa rotina é considerada perigosa e mortal. Tudo que se apresenta como novo é compreendido como ruim, perigoso, mau.
Diante de todos os terrores que ele viveu a única fórmula para viver é elaborada e resumida pelo chefe em uma palavra: MEDO. Tudo o que está do lado de fora da caverna deve ser temido, pois o mais importante é sobreviver e não, viver. E sempre no sinal de qualquer perigo todos correm para a, supostamente, segura, caverna. Trecho logo no início do filme:
Chefe: “Quando saímos é para lutar para conseguir comida em um mundo duro e hostil. E eu luto para sobreviver à minha família. O medo nos mantém vivo. Nunca não tenha medo”.
Então alguém levanta o seguinte questionamento: Qual é a razão disso tudo? Digo, por que estamos aqui? Para que fazemos isso?
Sem responder aos questionamentos por não saber as respostas ou simplesmente por ter medo ele encerra a conversa dizendo: “Ninguém disse que sobreviver é divertido”. Ele admitia que vivia sua vida na rotina da escuridão e do medo.
A caverna, o abrigo da família, “o mundo” do chefe acaba sendo destruído pelas mudanças geográficas da região. Os terremotos causados pela separação dos continentes aparecem como "o fim do mundo", afinal, o único lugar que ele se sentia seguro estava sendo destruído.
A destruição do lar o forçou a procura de outro lugar. Desde sempre a ordem era nunca sair da caverna. Agora, mesmo devido às mudanças não esperadas, o chefe continua firme no seu pensamento: a única opção de sobrevivência é manter o sentimento de união e medo, enquanto buscam uma nova caverna para morar.
Quando a família resolve mudar as regras que os mantinham na escuridão, somos guiados a uma analogia maravilhosa ao Mito das Cavernas, aquele mesmo narrado pelo famoso pensador no livro VII do clássico A República. É uma história inteligente que fala sobre enfrentar seus medos para lidar com as mudanças que o mundo as vezes impõe em nossas vidas.Cada cena mostra claramente que através do conhecimento, é possível captar a existência do mundo sensível e do mundo inteligível.
No caminho encontram uma pessoa que dizia ter: “Um sonho! Uma missão! Uma razão para viver!”. Loucura pensar assim, dizia o chefe. Curiosidade é veneno! Tentar algo novo ou diferente é ir contra as regras e morrer.
Ainda com medo e contra a vontade eles vão descobrindo um mundo novo nessa busca por uma “nova”, até então, caverna, para chamar de lar. Vivendo em um mundo onde ter medo é igual à sobrevivência, as diferenças entre o viver e o sobreviver é a grande lição que todos vão aprendendo.
O chefe tenta evitar, ao máximo, novidades: “Meu trabalho é se preocupar, seguir as regras. Elas nos mantêm vivos”!
Quando o novo apareceu, o chefe foi o primeiro a resistir, a duvidar, a reclamar, a questionar e a proibir. Ele estava usando como justificativa para a resistência, a proteção de sua família, mas todos sabiam que não era esta a verdade, seu medo era seu e de mais ninguém.
Os outros insistiam em dizer que regras por regras não funcionam para sempre, algumas tem que ser ajustadas. E que aquilo não era viver, era apenas "não morrer".
Em uma de suas frases, ela diz: “Aquilo não é viver, aquilo é sobreviver. Tem diferença!”.
Ela refere-se a vida na caverna e sua rotina. Querendo mostrar que há diferença. Fala-nos sobre a fugacidade da vida se não for vivida na plenitude, desenvolve o pensamento de que as ideias podem surgir das mentes mais incultas, e ainda joga bem com o indivisível binômio liberdade e sobrevivência.
Mas mesmo avesso a novidades, ele se vê obrigado a mudar. Inúmeras vezes ele tem que escutar: Não se esconda! Viva! Siga o Sol, e ele te levará até o amanhã.
De tanto escutar a mesma coisa ele resolve tentar e no momento que se permitiu viver admite: “Você tinha razão. Aí está! O Sol! Podemos conseguir! Podemos alcançar o amanhã”!
A busca da caverna virou a busca pelo amanhã. No caminho até lá, eles se divertem bastante, cometem desapegos, mas principalmente tiveram que aprender a soltar o orgulho, e acreditar na sabedoria dos outros.
O chefe bem que tenta, mas quando aparece a dificuldade: “Precisamos voltar para a caverna. Depressa, depressa”! Fala em tom de desespero.
Todos já acreditavam e sonhavam com o amanhã, contrariando, desafiando e estendendo a mão para levantar o chefe e bradam: “Já chega de escuridão! Já chega de se esconder. Já chega de cavernas. Qual o sentido de tudo isto?”.
Com o medo estampado no seu rosto ele desiste: Não consigo mudar. Não tenho ideias.
Mas no final, como todo filme tem que ter final feliz, ele se supera e muda. Assim é elogiado: “Você me surpreendeu hoje. Cabeça de pedra”.
A forma que a historia se desenvolveu mostra que nós temos que aceitar quem somos, mas que isso não quer dizer que não podemos experimentar coisas novas e que há maneiras de resolver os nossos problemas quando aceitamos a ajuda do outro.
Mas o final em jeito de happy ending retira-lhe algum brilho, por ser excessivamente simples.
Moral da história: vencer medos, mudar hábitos e tentar coisas novas é bom, e inevitavelmente leva à liberdade de ser e pensar.
O filme Croods apresenta todo um processo de adaptabilidade e nos leva ao questionamento de que a comodidade se parece com uma prisão, ou seja, nossa “zona de conforto” pode ter-se transformado em uma caverna.
Enfim, continuar na caverna é uma opção sua. Que tal desconstruir esse mito?
‘A vida real é bem diferente de uma filme! Poderia usar uma frase clichê: “A arte imita a vida”.
Mas acredito que ela imita apenas a nossa vontade de ter um final feliz. O chefe da vida real terminou a história quando resolveu voltar para a caverna por mais que agora ele soubesse a diferença de viver e sobreviver.
Eu conheço os conceitos de liberdade, sonhos, ambições ou saber. Eu já vivi intensamente esses conceitos. Por muito tempo segui o pensamento de tomar coragem em um segundo e agir, mesmo que isso viesse a dar errado ou ser um sucesso fantástico.
Com muita propriedade posso dizer: sobreviver pode não ser divertido, mas é o que me mantém longe da morte. Embora seja muito perto da falta de vida, nunca deixou de ser mais seguro.
Pra mim o mundo continua bem duro e hostil. Mas agora eles sabem que conseguem. Porque mudaram as regras: as que os mantinham no escuro. Eu não! Elas funcionam pra mim!
Não volte
Há 2 anos


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