Como marco desse ano resolvi adotar a postura da seguinte oração: “Tentar tirar o melhor dos acontecimentos mesmo que eles não estejam de acordo com o que eu gostaria que fosse”.
Antes eu pensava mais ou menos assim: “Farei tudo pra estar do lado de quem amo, se não gostar de mim, adeus”. Funcionou? Não! Acabei criando um mundo de solidão, para fugir dos sentimentos.
E como dá trabalho e faz coisa errada esse tal de sentimento, e tem mania de criar coisas dolorosas nas nossas mentes. Existe uma saudade mais dolorosa que a saudade do amor, da paixão, daquilo que um dia te fez sentir borboletas no estômago e criar situações fantasiosas na sua mente em menos de 5 segundos?
Esse amor... Como dói! Muitos dizem que nós procuramos essa dor, mas não concordo com isso. Por que vou procurar a dor? Ela veio até mim oras, e de diversas formas: do fora, do término do namoro, do beijo em outra pessoa na sua frente, da indiferença na conversa, da frieza das palavras e dos gestos não retribuídos... E aí eu te pergunto: — Fui atrás dessa dor? E eu te respondo: — Não, não fui. Apenas fui atrás da pessoa que amava e ela me fez sentir essas dores.
E sabe o pior? Que muitas pessoas nos machucam mais de duas, três, quatro, infinitas vezes. E pior ainda: cometendo o mesmo erro, e nós o que fazemos? Perdoamos. Lógico, isso mesmo. Perdoamos, porque amamos, porque queremos nos sentir bem. Pensamos apenas no bem dos nossos sentimentos, porque queremos o fim da angústia e daquela indiferença que fere nossa alma. E depois que perdoamos o que acontece? ELA chega e destrói tudo que você tentou recuperar trazendo a dor de todos os sentimentos infinitos.
“O amor pertence à insuspeitada categoria das coisas imprevisíveis”. Por que é o imprevisível que nos atrai e nos faz cometer loucuras em busca do sentimento de amar.
Não existe meio amor, meia felicidade, meia saudade. Todo sentimento pôr si só é inteiro.
Ou a gente é feliz ou não é; ou ama, ou não ama; ou quer, ou não quer.
Quando amamos, dúvida não existe; (Mario Quintana)
A gente morre todos os dias, só que esquece e se levanta
Se tem algo que desperta muita ira em nós é o descontrole sobre a hora da nossa morte. E sobre o momento da nossa concepção e nascimento. Sentimo-nos, paradoxalmente, cada vez mais empoderados, tendo como cúmplices as sucessivas invenções das novas tecnologias. O domínio sobre o universo, objetos coisas e pessoas. A era glass, a era touch e a era do controle (a última apontando a implacável vigilância da internet sobre nossa minuciosa intimidade) convivem na atualidade, aparentemente de mãos dadas. Fato é que simulando nosso império volitivo e ditatorial sobre joysticks materiais e virtuais sentimo-nos firmes comandantes de navios nas ondas da web e da vida.
A gente morre quando acorda. Morre de tédio, de preguiça, morre de mesmice, ou não, como apregoaria Caetano Veloso, com aquela voz de fruta sumarenta e lenta degustada em algum recanto nordestino. Tem pessoas que já morreram faz tempo. E nunca desconfiaram disso. Morrem de medo de encarar o medo, de colocar a coragem debaixo de um braço e o medo apoiado no outro braço e prosseguir caminhando, como ressaltaria Brecht.
Morre-se de pavor de mudar cacoetes, opiniões, certezas, repetindo automaticamente velhos e ranhetas comportamentos. Morre-se de medo de encarar as verdades da alma, no espelho da consciência, cujos reflexos nem sempre soam agradáveis ou digestivos. Medo de e enfrentar a relação puída, mas mantida apesar do visível desgaste, devido às oportunas muletas financeiras e quiçá psicológicas. A gente morre na repetição infindável de defeitos pra lá de conhecidos, nossos e dos outros, e anunciados instante após instante em nossa gestualidade e fala reveladora.
“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”
Chico Buarque já entoava em sua composição “Cotidiano”: “Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã”. Ou ainda, o seminal poeta clamava em “Construção” — de cuja música reproduzo um trecho:
“Beijou sua mulher como se fosse lógico ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro e flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado “Morreu na contramão atrapalhando o sábado”.
Vivemos rodeados por mortes commoditizadas, sem rosto nem débeis desejos. Como se salvar de tamanha e paralítica incompetência atitudinal? Tornar-se aficionado por séries televisivas centradas em zumbis ou vampiros, como “Resident Evil” e similares. Sabe-se que os zumbis namoram a eternidade. O protótipo da infinitude, ainda que se arrastem apodrecidos por terrenos estéreis.
A gente morre de frio e de mentiras. De amor escondido e expurgado pela covardia. De afeto enrijecido e estanque. Da flor não manifesta num discurso que se pretendia doce. Poetas, filósofos, estudiosos, escritores circularam o fascínio deste tema. Na religião, os espíritas, erguem a vitoriosa e redentora bandeira da reencarnação. O rabino Nilton Bonder especula sobre a salvação na obra “A Arte de se Salvar — Sobre Desespero e Morte”. Especialistas no assunto ocupam-se, como a dra. Elisabeth Kübler-Ross, fundadora da Tanatologia (estudo científico da Morte) de auxiliar doentes terminais em suas despedidas.
O cineasta Ingmar Bergman em “O Sétimo Selo”, elege a morte como personagem central da trama. Ariano Suassuna, dramaturgo e romancista apregoa: “Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver”.
Muita gente morre de silêncio. Não joga para fora as fecundas cirandas do coração. Morre de ódio, de inveja. E finge que estes sentimentos, tão descivilizados e deselegantes, pertencem somente aos outros. De soberba, arrogância e interjeições também se morre. E ainda quem deixa a paixão morrer no sexo e faz amor sem prazer. Como quem come uma sobremesa de nariz entupido.
Alguns poetas passeiam com naturalidade pela finitude. Pois parece que sempre há algo de romântico em dizer adeus à existência. Mário Quintana divaga: “Se vale a pena viver e se a morte faz parte da vida, então, morrer também vale a pena”.
Há gente que morre de orgulho, mas não dá o braço a torcer. Criaturas que jamais conheceram a grandeza do perdão, do abraço, da palavra sem mascaramentos.
Impossível deixar de citar também o breve excerto de Manoel Bandeira, no poema “A Morte Absoluta”: “Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra. A lembrança de uma sombra. Em nenhum coração, em nenhum pensamento. Em nenhuma epiderme. Morrer tão completamente. Que um dia ao lerem o teu nome num papel perguntem: Quem foi? Morrer mais completamente ainda. Sem deixar sequer esse nome”.
Nosso amantíssimo Drummond, traça versos em carne viva em “Os Ombros Suportam o Mundo”. Sem qualquer anestesia metafórica, declara na estrofe final deste seu poema: “Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação”.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, “loucuras de amor”.
Amor não é isso! É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando.
Sentir-se amado é ver que você lembra de coisas que contei dois anos atrás, é ver como fico triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando você diz que estou fazendo uma tempestade em copo d´água. Então, chegou a vez de simplificar as coisas.
Somos amados por perdoarmos um ao outro e que não guardamos a mágoa como munição na hora da discussão. Sinto-me amada por ser aceita, bem-vinda, inteira. Somos amados porque nos respeitamos e sabemos que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido, que podemos ser exatamente como somos, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.
Amado é quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.
Tive a chance de fazer tudo de novo. Só que agora sendo 'gente grande'. E preciso aproveitar isso de uma só maneira: ser inesquecível por ter causado overdose de sorrisos, felicidade, amor, cuidado e saudade.