sexta-feira, 6 de junho de 2014

Nua e crua


Durante todo o que me lembro da minha vida sempre dormi e me alimentei mal, com preguiça e auto-estima zerada. Sempre que podia me isolava, tinha constantes crises de choro, meu rendimento escolar era péssimo, faltava muita aula ou dava um jeito de ir embora cedo. 

Sempre tive dotes de fácil inteligência e aguçado raciocínio, além de timidez em expressar publicamente. Vivi de amores platônicos. Já fui criativa e inventiva, muito sonhadora e mais aventureira, daquelas que gosta de correr risco e encarar desafios. Gostava de viajar, cinema, arte, música e praia é comigo mesmo, mas sou também extremista naquilo que é meu e do outro. Gosto de presentear e fico tímida ao ser presenteada, companheirismo e amizade um dia foram meus fortes. Regularmente sou honesta, mas as vezes desonesta em emitir a essência da verdade em alguns momentos para não ferir pessoas, gosto de apreciar eletrônicos em seu interior e o mundo jurídico.

Apesar das coisas boas, sempre de uma hora para outra, sem motivo aparente, a alegria dava lugar à tristeza. Não tinha vontade de fazer absolutamente nada. Deixei de sair, de frequentar as aulas da faculdade e até de conversar com os meus amigos. A única atividade que ainda fazia era navegar na internet. Era uma forma de passar os dias, que eram cada vez mais longos e insuportáveis. Se não pudesse usar o computador, simplesmente deitava e ficava horas na cama e na TV.

Embora soubesse que não estava bem, não admitia que precisava de ajuda. Falava que apenas queria ficar quieta. Por muito tempo não procurei um médico, para mim era uma fraqueza moral que deveria ser enfrentada com força de vontade, até que não aguentei. Consultei uma psiquiatra, que identificou em mim depressão. Mesmo sem acreditar, confiei no profissional e fazia tudo o que ele dizia, tomava os remédios corretamente e fazia terapia. Mas me sentia fraca e envergonhada, não falava com quase ninguém sobre o meu problema. Algumas vezes que resolvi falar senti incompreensão de colegas e familiares. Depois abandonei o tratamento porque estava me sentindo bem e achava que o que tinha acontecido era besteira.

Após certo tempo, com um novo trabalho e grandes conquistas comecei a me irritar com coisas banais e quanto mais oportunidades de crescimento me surgiam inversamente era o meu rendimento profissional. Minha vida ficou uma droga quando me vi como uma profissional que eu próprio não admirava. Procurei novamente um médico, iniciei o tratamento, mas continuei a negar a doença até novamente interrompê-lo.

Me preocupo muito com minha imagem estigmatizada como alguém que faz corpo mole, é baixo-astral e sem pique. Quando resolvi fazer uma cirurgia não tão urgente para esconder a minha verdadeira incapacidade de ir trabalhar é que percebi quão grave estava a situação.

Muitas vezes tenho me resguardado em silêncio no isolamento de meu quarto para não trazer preocupações mais para família e gerar um somatório ainda mais elevado dos sentimentos de culpa, já que o companheiro inseparável da depressão, hospedeiro constante de minha corroída mente de desprezo, comungando com os mais ousados pensamentos de profunda solidão e desgosto. No entanto, tenho serias dificuldades em aceitar minha condição no contexto social e vivo atormentada sistematicamente pela ansiedade e oscilantes depressões.

O complicado é ter estímulo para recomeçar, acreditar em algo novo, reencontrar a felicidade. Diante de um processo de sensibilidade emocional desequilibrada e fragilizada, me sinto decepcionada, uma vergonha para a familia e colegas de trabalho. Minha mente afirma que não tenho mais credibilidade. Muitos me julgam, outros me definem e há aqueles que apenas criam a mulher descompromissada. O preconceito faz parte da minha vida.

Eu sou apenas uma farmacodependente que sobrevivo dia após dia. Minha personalidade está se destruindo gradativamente. Meu desinteresse em tudo – até mesmo em melhorar, que dá impressão que “não quero me ajudar” – chega a ser a parte mais cruéis disso tudo, pois acaba justamente com a minha credibilidade e minha vontade. Não é preguiça ou má vontade: as vezes simplesmente não consigo querer nada – nem melhorar. E isto resulta em um completo desânimo e isolamento de vida.

Não quero desistir de mim, mas abrir a mente para uma nova vida se torna impossível quando não existem oportunidades. Tento encontrar maneiras para sentir alegria, mas vivo em pleno estresse crônico, o que contrai e reduz o meu prazer em viver.

“Você acha que depressão é frescura? 
Você acha que o depressivo tem que reagir e não focar no problema? 
Você acha que você está imune à doença?
Se você respondeu sim a qualquer uma das perguntas acima você, assim como a maioria da população mundial, não sabe nada sobre a doença depressão, mas repete como papagaio as frases feitas que solidificam os pré-conceitos, e pior, passa a acreditar nelas. 

Você que não tem, não vai entender mesmo, mas não adianta dizer para o doente “não se concentrar no problema” ou o famoso “você tem que reagir!” Seria o mesmo que dizer para um paraplégico: “levante e corra! corra!”. Também não adianta dizer: “você precisa se ocupar”!
                        Não o recrimine, isso é doença!
Não insista para eu sair, pois tudo o que preciso é do apoio silencioso de alguém em quem confio. O melhor é se informar sobre o assunto, clarear as ideias, e vamos aproveitar para fazer um exercício muito bom para a humanidade: não julgar, não julgar, não julgar!” 
Fonte: http://www.pensamentosfilmados.com.br/br/depressao-e-frescura/

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