"O que é crime?"
A boa forma do mundo, a esfera humana,divina e natural encontra se em normas legitimadas num e para um grupo social, definindo assim criminoso como todo aquele que se desviar do comportamento recebido, que se recuse a imitar o gesto do herói fundador, do antepassado instituinte: crime é toda inovação. O criminoso pertence à esfera do não-ser, com a sua inquietante estranheza, que põe em causa a existência total do grupo. A totalidade do grupo e da sua auto-interpretação implica, assim, uma totalização do crime e do criminoso.
"Por que punir?"
A visão teleológica dirige a punição para a melhoria pessoal,produzindo através de um mal – a pena –
uma recuperação da razão, um reassumir de um compromisso, um exame de consciência, para que, desse modo, o sujeito se melhore a si próprio.
A punição fica limitada a uma ação exterior que possibilita e facilita o trabalho de cada qual sobre si – “a medicina da maldade” (Platão)
Por outro lado, o objetivo da punição pode ser geral, já não o indíviduo, mas a coletividade.
O fito do castigo é, assim, instituir um exemplo inibidor de futuras acções criminosas ou defender a sociedade da ação nociva do criminoso.
Assim, garante-se uma felicidade maior no futuro ou assegura-se a felicidade presente. Será?
"O crime desencadeia a punição como uma causa o seu efeito, só que, dada a ausência de qualquer
valor presente na Lei – pelo contrário, esta é que estabelece o que tem validade –, a retribuição é
cega e o sujeito vazio" (Kelsen).
Já Nietzsche chega a considerar criminoso como “um pedaço de destino irresponsável que
se agudiza com a punição como perante uma resistência que o obriga a uma melhor
adaptação”.
"... e quando se quer individualizar o adulto são, normal e legalista, agora é sempre perguntando-lhe o que ainda há nele de criança, que loucura secreta o habita, que crime fundamental ele quis cometer." FOUCAULT
"Como punir?”
Uma justiça de teor totalizante chega facilmente a exigências irracionais, por meio de uma racionalidade completa da realidade. Neste campo, as sociedades religiosas latu sensu incluem, como formas de chegar à justiça, fazer com que os poderes invisíveis digam o direito e determinem a punição, os ordálios ou os campeões.
Processos irracionais que trazem, contudo, uma exigência de justiça de tal modo forte que ressente qualquer impossibilidade de chegar a uma decisão sobre a justiça como uma injustiça, em particular ante os poderes invisíveis, que são necessariamente justos à máxima potência.
A falta de justiça seria uma limitação à omnipotência divina e, por isso, ceder a uma tal visão não totalizante representa uma ofensa: constituiu uma injustiça para com o maximamente justo, logo, a justiça existe, tem de existir.
Após tantos estudos, pesquisas e teoria, vamos ao caso concreto:
É verdade! Quando jovem e cheia de sonhos eu descumpri uma lei, quebrei uma norma de um país onde as leis funcionam e são levadas a sério. O mesmo país que me ensinou a paixão pela lei, foi o que me puniu com a pena de banimento por 10 anos.
Numa recente visita à embaixada, na tentativa de conseguir um visto, descobri que morar ilegal gera, no mínimo uma década de consequências: portas fechadas.
Mas essa impossibilidade de voltar foi além do que a lei queria.
Fiquei me perguntando: "Qual crime cometi? Tentar ser feliz? Acreditar nos meus sonhos? Ir em busca dos meus ideais?"
As vezes acho que meu crime foi ser diferente. Pensar diferente. Agir diferente. Enfrentar.
Justiça divina? Talvez! Essa me trouxe infelicidade e me mostrou, pouco a pouco, outra religião bem diferente da religião ensinada pelos homens.
Por isso muitas pessoas não entendem e não sabem lidar com minha mente.
E com o tempo passando fui percebendo que a vida é sempre a mesma: rede de ilusões e desenganos.
Com esse aprendizado hoje prefiro não questionar e aceitar, não vale a pena lutar. Aos olhos de
Nietzsche, a punição gerou uma melhor adaptação. Mas isso não garante que seja bom.
Mesmo sem saber exatamente qual foi o meu crime, cumprirei minha pena até o fim, que não serão apenas 10 anos de uma lei estrangeira. Me declarei guilty.
Parei de sonhar, parei de viver, sou um ser inanimado, pois um homem sem sonhos é um homem sem vida.
No mais, vou levando a vida sorrindo para as pessoas quer gostem ou não de mim, para esconder delas que sou diferente do que pensam;
Sempre faço de conta que tudo está bem quando isso não é verdade, mesmo que eu não acredite que algo vai mudar.
Aprendi com meus erros mesmo sem saber quais são afinal, pelo menos, aos olhos da sociedade, hoje sou uma pessoa melhor ou pelo menos aparento ser.
Não volte
Há 2 anos

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